
Como o autor destas linhas anda muito musical, pensou em escolher uma letra p
ara refletir sobre o assunto e dedicar às mulheres. Mesmo gostando muito de Erasmo Carlos e até de "Mulher" (composição do Tremendão em parceria com a consorte, Narinha) e não tendo nada contra a obviedade, queria escapar do lugar-comum. Por isso, optou por "Eu quero essa mulher assim mesmo", do sambista Monsueto Menezes (foto) com José Batista. Mais especificamente pela versão de Caetano Veloso para tal canção, gravada no experimental e (ainda) pouco aceito Araçá azul, registro de estúdio lançado em 1972.
Segundo escreveu Caetano em seu livro Verdade tropical, "o disco bateu recordes de devolução": "Ao chegar em casa, a maioria nem sequer agüentava ouvir a primeira faixa até o fim: voltava correndo ao vendedor para tentar devolver o disco."
Difícil, portanto, encontrar uma obra da música brasileira que fosse marcada por uma resistência tão grande quanto à que houve (e há) em relação às mulheres e a muitas das atitudes delas. Mas ainda há mais.

Segundo escreveu Caetano em seu livro Verdade tropical, "o disco bateu recordes de devolução": "Ao chegar em casa, a maioria nem sequer agüentava ouvir a primeira faixa até o fim: voltava correndo ao vendedor para tentar devolver o disco."
Difícil, portanto, encontrar uma obra da música brasileira que fosse marcada por uma resistência tão grande quanto à que houve (e há) em relação às mulheres e a muitas das atitudes delas. Mas ainda há mais.

Em primeiro lugar, a situação da mulher deve ser compreendida sempre como a de uma criatura tão excluída, oprimida, segregada (que o leitor escolha o termo que melhor lhe convier) quanto o homossexual, por exemplo. E, coincidentemente, a frase "UM DISCO PARA ENTENDIDOS" pode ser lida quando se abre a capa de Araçá azul. É bem provável que a intenção não fosse (ou não fosse apenas) fazer referência ao que foi registrado no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa como tendo subacepção (como tabuísmo, palavra grosseira) de "que ou quem pratica, ou apenas aceita, comportamentos sexuais variados, esp. o homossexualismo [sic]". Até porque, vale dizer, os entendidos aos quais Caetano dedicou o trabalho em questão são –ou são também– nomeados: "bola nieve-herminia silva-clementina de jesus-dinailton-d. moreno" (assim mesmo: todos com os nomes em minúsculo e separados por hífens). Mas nada impede que tal frase seja hoje ressignificada para dar conta de um problema que não é apenas o da mulher, mas o da chamada diversidade –muito embora não seja essa a intenção deste que vos escreve.



Voltando a Monsueto e Caetano, é curioso observar que, no já citado Transa, disco de estúdio anterior a Araçá azul, o baiano tenha gravado uma composição do sambista na qual este parece defender o oposto do que expõe na canção ora em apreço: "Mora na filosofia" ("Eu vou lhe dar a decisão/Botei na balança/Você não pesou/Botei na peneira/Você não passou/Mora na filosofia/Pra que rimar/Amor e dor//Se seu corpo ficasse marcado/Por lábios ou mãos carinhosas/Eu saberia, ora vai, mulher/A quantos você pertencia/Não vou me preocupar em ver/Seu caso não é de ver pra crer/Tá na cara").

Eu quero essa mulher
(Monsueto Menezes/José Batista)
quero essa mulher assim mesmo
quero essa mulher assim mesmo
essa mulher assim mesmo, eu quero
eu quero essa mulher assim mesmo
eu quero essa mulher assim mesmo
eu quero essa mulher assim mesmo
essa mulher assim mesmo, eu quero
eu quero essa mulher assim mesmo
eu quero essa mulher assim mesmo
baratinada
baratinada
quero essa mulher assim mesmo
alucinada
quero essa mulher assim mesmo
despenteada
quero essa mulher assim mesmo
descabelada
quero essa mulher assim mesmo
embriagada
quero essa mulher assim mesmo
intoxicada
quero essa mulher assim mesmo
desafinada
quero essa mulher assim mesmo
desentoada
quero essa mulher assim mesmo
Obs.: Enquanto voltava a Araçá azul, este Soprador de Vidro se lembrou de que nunca comprou o disco para incorporá-lo à sua coleção. Mas há muito, muito tempo, teve a oportunidade de oferecê-lo de presente de aniversário à colega e amiga Elda Moura. Este texto não deixa de ser dedicado a ela, que superou com muita serenidade a condição de evangélica para ser a pessoa que se tornou.
4 comentários:
Meu caro amigo Gustavo, um dos quadros do Klimt postados por vóis micê talvez traduza toda (ou parte) a ambiguiodade feminina. Trata-se do magnífico Judith (ou Salomé) no qual a mulher meio entorpecida-fantasmagórica encara de frente seu retratista com a cabeça de um homem nas mãos. Portanto, tanto pode ser a heroína judia Judith com a cabeça de um romano nas mãos, como Salomé tendo nas mãos (por frivulidade e poder) a cabeça do profeta João Batista. Sugestão de leitura: MULHERES do grande "macho velho fuleragem" Charles Bukowski!
Saudações priapísticas
Valeu. Selecionei meio aleatoriamente pinturas do Klimt pois gosto muito dele.
Um abraço.
Amigo Gustavo, fiquei feliz por sua referência à minha crônica:" Ah !Nós,mulheres!..." em meio a tantas colocações sobre nós. Bem se vê que você é um dos poucos que revela a alma feminina que há em homens assumidamente sensíveis.
Grata,
Walnize Carvalho
De nada, Walnize. É uma honra recebê-la aqui. Já disponibilizei meu e-mail na descrição do blog.
É curioso que você detecte em mim uma alma feminina a partir do que escrevi. Alguns (ou talvez muitos)considerariam meu texto chato. Penso que até eu diria quase isso, pois sou de uma autocrítica cruel. O bom de ter blog (mesmo que não atualizado com regularidade) é isto: o rápido retorno dos leitores. De algum modo, eles indicam o caminho a seguirmos.
Um grande abraço.
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