domingo, 8 de março de 2009

Antes tarde (ou à noite) do que nunca: eu quero essa mulher assim mesmo

Ao decidir tratar do Dia Internacional da Mulher, este Soprador de Vidro entendeu que não deveria discutir a importância de comemorar ou não essa data. Para isso, ele remete seus poucos leitores aos textos da unimúltipla Aucilene Freitas, publicado no blog dela ("Enlouqueça!"), e da poeta e cronista Walnize Carvalho, que saiu no Monitor Campista de hoje e foi reproduzido por Fábio Siqueira no Comentários do cotidiano ("Por que hoje é o dia delas...").
Como o autor destas linhas anda muito musical, pensou em escolher uma letra para refletir sobre o assunto e dedicar às mulheres. Mesmo gostando muito de Erasmo Carlos e até de "Mulher" (composição do Tremendão em parceria com a consorte, Narinha) e não tendo nada contra a obviedade, queria escapar do lugar-comum. Por isso, optou por "Eu quero essa mulher assim mesmo", do sambista Monsueto Menezes (foto) com José Batista. Mais especificamente pela versão de Caetano Veloso para tal canção, gravada no experimental e (ainda) pouco aceito Araçá azul, registro de estúdio lançado em 1972.
Segundo escreveu Caetano em seu livro Verdade tropical, "o disco bateu recordes de devolução": "Ao chegar em casa, a maioria nem sequer agüentava ouvir a primeira faixa até o fim: voltava correndo ao vendedor para tentar devolver o disco."
Difícil, portanto, encontrar uma obra da música brasileira que fosse marcada por uma resistência tão grande quanto à que houve (e há) em relação às mulheres e a muitas das atitudes delas. Mas ainda há mais.
Em primeiro lugar, a situação da mulher deve ser compreendida sempre como a de uma criatura tão excluída, oprimida, segregada (que o leitor escolha o termo que melhor lhe convier) quanto o homossexual, por exemplo. E, coincidentemente, a frase "UM DISCO PARA ENTENDIDOS" pode ser lida quando se abre a capa de Araçá azul. É bem provável que a intenção não fosse (ou não fosse apenas) fazer referência ao que foi registrado no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa como tendo subacepção (como tabuísmo, palavra grosseira) de "que ou quem pratica, ou apenas aceita, comportamentos sexuais variados, esp. o homossexualismo [sic]". Até porque, vale dizer, os entendidos aos quais Caetano dedicou o trabalho em questão são –ou são também– nomeados: "bola nieve-herminia silva-clementina de jesus-dinailton-d. moreno" (assim mesmo: todos com os nomes em minúsculo e separados por hífens). Mas nada impede que tal frase seja hoje ressignificada para dar conta de um problema que não é apenas o da mulher, mas o da chamada diversidade –muito embora não seja essa a intenção deste que vos escreve.

Além disso, a versão de "Eu quero essa mulher" (sem "assim mesmo" no título apresentado no disco do baiano) por um então recém-chegado de um exílio forçado em Londres deve ser e ter sido um escândalo para os puristas defensores de sambas de raízes que só existem na cabeça deles. Trata-se de um rock daqueles que se convencionou chamar de "de garagem", executado com o auxílio de Lanny Gordin (guitarras –aliás, guitarra e guitarra), Tuti Moreno (bateria), ambos do time de Jards Macalé (que acompanhou Caetano em Transa), e Moacyr Albuquerque (baixo). Não que tal tipo de rock não tivesse aportado no Brasil antes de 1972 (vide, por exemplo –e sem ir muito longe–, "Sem nada" e "18:30 - Parte 1/Os hemadecons cantavam em coro chóóóóóóó - Parte 2", lados A e B de um compacto da banda A Bolha, lançado um ano antes). Mas, para muitos intelectuais da época –quase todos de esquerda, diga-se–, tal ritmo não poderia ser usado por um representante da música popular brasileira (ou que assim se pretendia); era coisa de jovens alienados. Ainda que, talvez mais naquele período que hoje, Caetano gastasse e andasse para isso. O que interessa nesse ponto é a possibilidade de aproximar a transgressão promovida com a versão pesada de "Eu quero essa mulher assim mesmo" da resistência que todas as mulheres devem exercer em relação a qualquer forma de dominação masculina.

Last, but not least, como samba, rock ou o que quer que seja, a letra de "Eu quero essa mulher assim mesmo" permite pensar naquilo que o saudoso sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007) chamou de alteridade radical, ao tratar de certa atitude do frei dominicano espanhol Bartolomé de Las Casas (1474-1566) para com os índios, durante o período de colonização da América. Como o que importa aqui são as mulheres, e tal atitude está sendo adaptada ao caso delas, basta dizer que a recorrência à idéia de alteridade radical serviria para banir um certo discurso liberal que prega respeito e tolerância para com o outro. Por trás desse discurso há muita hipocrisia. Mas que o aprofundamento desse ponto fique para debates acadêmicos!
Voltando a Monsueto e Caetano, é curioso observar que, no já citado Transa, disco de estúdio anterior a Araçá azul, o baiano tenha gravado uma composição do sambista na qual este parece defender o oposto do que expõe na canção ora em apreço: "Mora na filosofia" ("Eu vou lhe dar a decisão/Botei na balança/Você não pesou/Botei na peneira/Você não passou/Mora na filosofia/Pra que rimar/Amor e dor//Se seu corpo ficasse marcado/Por lábios ou mãos carinhosas/Eu saberia, ora vai, mulher/A quantos você pertencia/Não vou me preocupar em ver/Seu caso não é de ver pra crer/Tá na cara").

Bem, chega de elocubrações. Que os que aguentaram ler até aqui, os que desistiram ou nem leram nada possam dizer se concordam com este escriba, discordam dele ou elaborar considerações próprias a partir da letra de "Eu quero essa mulher (assim mesmo)", cuja transcrição foi feita com base no encarte de Araçá azul e na audição da faixa. Mas o melhor mesmo seria ouvir Caetano cantando a música.


Eu quero essa mulher
(Monsueto Menezes/José Batista)

quero essa mulher assim mesmo
quero essa mulher assim mesmo
essa mulher assim mesmo, eu quero
eu quero essa mulher assim mesmo

eu quero essa mulher assim mesmo
eu quero essa mulher assim mesmo
essa mulher assim mesmo, eu quero
eu quero essa mulher assim mesmo

eu quero essa mulher assim mesmo
baratinada
quero essa mulher assim mesmo
alucinada
quero essa mulher assim mesmo
despenteada
quero essa mulher assim mesmo
descabelada
quero essa mulher assim mesmo
embriagada
quero essa mulher assim mesmo
intoxicada
quero essa mulher assim mesmo
desafinada
quero essa mulher assim mesmo
desentoada
quero essa mulher assim mesmo

Obs.: Enquanto voltava a Araçá azul, este Soprador de Vidro se lembrou de que nunca comprou o disco para incorporá-lo à sua coleção. Mas há muito, muito tempo, teve a oportunidade de oferecê-lo de presente de aniversário à colega e amiga Elda Moura. Este texto não deixa de ser dedicado a ela, que superou com muita serenidade a condição de evangélica para ser a pessoa que se tornou.

4 comentários:

Raskolnikov disse...

Meu caro amigo Gustavo, um dos quadros do Klimt postados por vóis micê talvez traduza toda (ou parte) a ambiguiodade feminina. Trata-se do magnífico Judith (ou Salomé) no qual a mulher meio entorpecida-fantasmagórica encara de frente seu retratista com a cabeça de um homem nas mãos. Portanto, tanto pode ser a heroína judia Judith com a cabeça de um romano nas mãos, como Salomé tendo nas mãos (por frivulidade e poder) a cabeça do profeta João Batista. Sugestão de leitura: MULHERES do grande "macho velho fuleragem" Charles Bukowski!
Saudações priapísticas

Gustavo Landim Soffiati disse...

Valeu. Selecionei meio aleatoriamente pinturas do Klimt pois gosto muito dele.

Um abraço.

Anônimo disse...

Amigo Gustavo, fiquei feliz por sua referência à minha crônica:" Ah !Nós,mulheres!..." em meio a tantas colocações sobre nós. Bem se vê que você é um dos poucos que revela a alma feminina que há em homens assumidamente sensíveis.
Grata,
Walnize Carvalho

Gustavo Landim Soffiati disse...

De nada, Walnize. É uma honra recebê-la aqui. Já disponibilizei meu e-mail na descrição do blog.
É curioso que você detecte em mim uma alma feminina a partir do que escrevi. Alguns (ou talvez muitos)considerariam meu texto chato. Penso que até eu diria quase isso, pois sou de uma autocrítica cruel. O bom de ter blog (mesmo que não atualizado com regularidade) é isto: o rápido retorno dos leitores. De algum modo, eles indicam o caminho a seguirmos.

Um grande abraço.