quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Sobre Antônio Roberto Fernandes

Para quase todos os povos, a morte de seres humanos é algo que, em geral, causa muita tristeza. Pelo morto, é comum que sofram, antes de tudo, seus parentes e amigos. Se ele foi alguém de projeção na vida pública, pode ainda comover –involuntariamente, diga-se– muito mais gente. Ou, num outro extremo, ser transformado em carniça para abutres (ir)responsáveis por (ou projetados em) toda sorte de veículos de comunicação –de “rádios tamanco” à mídia eletrônica. Assim, para recorrer a uma espécie de lugar-comum, pobres-diabos são convertidos em santos; “A morte dele significa para todos nós uma perda irreparável” e chavões do tipo são usados, indistintamente, por inimigos e amigos (os mais novos de infância, inclusive) do finado, para valorizar tardiamente a obra de alguém de dotes às vezes tão pouco estimados quando vivo, ou que, por um motivo qualquer, já nem vinha produzindo mais quase nada.
Foto: Antônio Leudo
Felizmente, nada disso ocorreu com o poeta e ativista cultural Antônio Roberto Fernandes, falecido na semana passada, para o qual seus familiares marcaram para às 19 horas de hoje missa de sétimo dia na Catedral Basílica Menor do Santíssimo Salvador.
Em primeiro lugar, porque –até ser internado na UTI do Hospital e Pronto-Socorro Prontocardio, no dia 20 de outubro, por conta de uma diverticulite– Antônio Roberto vinha mantendo, com o mesmo e intenso ritmo de sempre, aquele que certamente será sempre lembrado como seu mais conhecido, duradouro e profícuo projeto no município de Campos: o Café Literário.
Uma das últimas edições do evento que contaria com a participação dele foi promovida no dia sete de novembro no CEDOA – Colégio Estadual Dom Otaviano de Albuquerque (foto à esquerda), instituição na qual o responsável por este blog atua como professor de História em turmas do Ensino Médio. A idéia partiu da professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira Viviane Amaral (que cedeu gentilmente as fotos do evento aqui publicadas), sob inspiração da proposta do vate de levar o Café Literário do Palácio da Cultura para instituições de ensino do município, e ganhou forma numa grande celebração da qual participaram alunos e docentes do colégio (com destaque para o professor de Matemática e poeta Sérgio Soares) e militantes da poesia em Campos, como Otaviano Soares, Cristiano Fagundes e Joel Melo (todos na foto acima, à direita, em meio a professores do CEDOA).
Portanto, se o ativista não teve o reconhecimento que merecia foi pelo pouco-caso devotado pela maioria dos governantes a áreas como a da Cultura –e não por demérito algum dele.
Em segundo lugar, porque a abordagem da internação, da agonia e da morte do poeta na mídia local não foi marcada por exageros. Nem os que tinham diferenças com Antônio Roberto e prestaram declarações sobre ele o martirizaram. Ao contrário, ressaltaram a habilidade do poeta em administrar tais diferenças. E se os últimos dias de vida do vate foram tratados de uma forma superlativa nessa ou naquela nota ou matéria, nesse ou naquele depoimento de um ou outro indivíduo, tal desequilíbrio refletiu, certamente, uma exceção à regra.
O autor destas linhas nada havia comentado ainda sobre a morte de Antônio Roberto Fernandes, receando fazer aqui tudo o que condenaria em certas formas de tocar no assunto. Mas, como pessoa e interessado pela área de Cultura em Campos, entendeu que não poderia deixar de registrar suas impressões em relação ao fato e à divulgação dele da semana passada até hoje.

3 comentários:

H.LANDIM disse...

Gustavo, tenho acompanhado de perto seu blog.Faz-me lembrar da Av.Alberto Torres 359.Tempos aoutros em que no balanço da varanda Dona Dag fazia suas reflexões.Lendo seu texto sobre o poeta Antonio Roberto, me remeto áquela época em que ainda muito jovem ouvia de nossa dilet avó os comentários e reflexões que hoje em dia fazemos aqui na rede.
Conceitualmente o paranmetro é muito semelhante.O ar crítico, muitas vezes cético em outras querendo acreditar que tudo era pra sempre como diz a canção!
Você muito miudo á epoca, mas já em nosso convívio,passou boas tardes e manhãs naquela varanda embalado pela doce brisa do Paraíba, que diga-se de passagem hoje não tem mais brisa e sofre das mazelas da ganancia economica e irresponsabilidade da nação.
Deixo para vc um beijo carinhoso e minha admiração pelos texos ,iniciativa de criar o SOPRADOR DE VIDROS!

BJ

Gustavo Landim Soffiati disse...

Valeu, Heloísa!

Gustavo Landim Soffiati disse...

Valeu, Heloísa!