domingo, 13 de dezembro de 2009

Discurso do representante do GTCC na Audiência sobre o Pólo de Cinema

P.S.: Esta postagem foi produzida no final da tarde de sexta-feira e programada para publicação às 23:37, para que este blogueiro tivesse tempo revisá-la, caso houvesse tempo, ou, do contrário, que o texto saísse mesmo como estava. Não houve tempo, e ontem o blogueiro não acessou internet. Há pouco, notou que o texto não estava publicado no blog. Como o que se pretende é registrar as ações de um movimento, conforme explicado abaixo, afigurou-se pertinente a publicação do material, que, de sexta para cá, sofreu apenas uma alteração: na última frase da apresentação do discurso de Bisogno, na qual se previu inicialmente a publicação de um relato da reunião ora em questão para o dia seguinte (hoje, ontem).
O responsável por este blog é um dos membros do Grupo de Trabalho Cultura e Cinema (GTCC), cujos integrantes conseguiram uma audiência pública na Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, capitaneada pelo vereador Rogério Matoso, para tratar da implantação de um Pólo de Cinema no município.
A entrada deste que vos escreve no GTCC ocorreu em meados do ano (quando o grupo ainda nem tinha nome específico), por ocasião da organização da mostra Memórias: Arte Cinematográfica em Campos dos Goytacazes, que teve lugar no Centro de Convenções da UENF (e, fugindo um pouco ao programado, no Sesc), entre os dias 28 e 31 de outubro. Ele foi convidado a integrar a agremiação a partir de uma conversa que teve com Wesley Machado –então já componente da comissão organizadora do evento–, sobre algo do que sabia a respeito dos festivais de cinema de super-8 da década de 1970 em Campos.
Como na época este veículo não estava funcionando, o responsável por ele solicitou ao blogueiro Xacal a divulgação da mostra em A TroLhA (confira). Também por esse motivo o assunto não vinha sendo abordado aqui. Agora que –a despeito da periodicidade irregular– Soprador de Vidro vem sendo atualizado com mais freqüência, a pretensão é manter uma agenda permanente de divulgação e discussão dos debates do Pólo de Cinema neste blog.
Para começar, segue o discurso que Carlos Alberto Bisogno, cineasta (roteirista e diretor) e compositor de trilhas sonoras de cinema, proferiu ontem na audiência na Câmara. Bisogno foi escolhido previamente pelos componentes do GTCC para representá-los na reunião, na qual ainda se pronunciaram outros membros do grupo (Nilza Franco, Antonio Roberto Kapi e o autor destas linhas). Apesar de a audiência ter ocorrido na quinta-feira, ainda se pretende publicar aqui um relato da ocasião.
Audiência Pública sobre o Pólo de Cinema de Campos
Por Carlos Alberto Bisogno

Boa tarde a todos. Gostaria que minhas primeiras palavras fossem de congratulações a esta casa que de forma admirável se abriu a esta discussão.
Sou Carlos Alberto Bisogno, sou Produtor, Diretor, Roteirista e Compositor musical cinematográfico e fui indicado para representar o pensamento de um pequeno, mas importante grupo que nasceu através de uma iniciativa da pró-reitoria de extensão da UENF e que tem trabalhado para ver desabrochar em nossa cidade a apreciação e produção de cinema, a forma artística que considero a mais completa, por conter em si, mesmo que subjugadas por uma linguagem própria: a literatura, a música, as artes cênicas e visuais. E sim, encontramos também a ciência manifesta nas tecnologias desenvolvidas e aplicadas.
Algumas áreas de pesquisa como a psicanálise, a iconografia e a semiótica têm discutido as possibilidades que o audiovisual instaura na criação de “imaginários coletivos” enquanto ferramenta capaz de construir valores, diversidades e conhecimentos.
O audiovisual enquanto mecanismo de representação do real, ao veicular pontos de vista, contribui para a manifestação da variedade de olhares. Aqui, creio ser importante lembrarmo-nos do conceito de perspectiva, que pode ser descrita como a arte de representar em uma superfície plana as coisas da maneira que as vemos. Assim sendo, as produções de imagens e sons, realizadas apoiando-se em determinada perspectiva, como é quando nos deparamos com uma produção fílmica, servem para fundamentar a importância, a meu ver, de se ter o cinema como prática de se lançar livres olhares, de ser livre e experimentar o mundo. É uma ferramenta que propicia a supressão de estereótipos e categorias redutoras que tanto limitam o pensamento humano e a prática da educação.
Com este intuito, promover a reflexão sobre inclusão e protagonismo social através da 7ª arte deve ser o objetivo de qualquer iniciativa que, de forma mais pragmática, vise estabelecer uma cultura audiovisual que é de extrema importância para um melhor desenvolvimento social e econômico de qualquer cidade ou pais.
Um Pólo de Cinema que está, desde o início, no horizonte de nossos sonhos, deve ter tal preocupação logo em sua criação, e estar sempre aberto ao incentivo às mais variadas formas de se fazer cinema, nunca limitar as infindáveis possibilidades de realização audiovisual.
Cabe também dizer aqui neste ponto que criar um Pólo de Cinema, não é como muitos imaginam, construir estúdios milionários, mais sim um conjuntos de mecanismos que viabilizem e incentivem a produção audiovisual. Um Pólo de Cinema não é uma instituição ou lugar como erroneamente insinua a expressão, é um projeto.
A cidade de Campos dos Goytacazes oferece ótimas condições climáticas, geográficas e urbanas para esse projeto e realizações cinematográficas: bons ventos, ótima iluminação natural, o fato de ser uma planície e estruturas arquitetônicas que podem ser utilizadas como ótimos cenários.
A região tem passado por transformações importantes nas últimas décadas e essas mudanças econômicas e políticas estão relacionadas com um processo mais geral de transformações que ainda tendem a se intensificar.
Portanto elaborando e incentivando projetos que busquem criar uma cultura, entre outras, de produção e consumo audiovisual em Campos, não se está incentivando apenas um projeto específico, mas sim o desenvolvimento de diversos setores da sociedade como a economia e a educação que devem e precisam acompanhar estas transformações.
A produção cinematográfica movimenta a economia onde ela se realiza, pois se utiliza do comércio e de serviços: serviços alimentícios locais, hospedagens, papelarias, confecções de figurinos, cenários, mão de obra necessária na composição de uma equipe, como eletricistas, costureiras, especialistas em equipamentos de segurança, entre tantos outros.
O cinema, imagem em movimento, vai muito além da sua superficial função de entretenimento, ele suscita pensamentos, propõem-nos modelos e comportamentos, condicionam de uma forma positiva ou negativa a nossa atitude e concepção do mundo. É deste fenômeno tão abrangente que tratamos.
A nossa sociedade se baseia na transmissão de conhecimentos e valores e para aplicá-los na vida e, desta forma, passar a mensagem às gerações futuras. Este fenômeno social, político, artístico que é o cinema e o audiovisual não pode se negado a ninguém.
É, portanto, difícil que, para quem acredita na formação de indivíduos cidadãos através da valorização da cultura, aceitar que o cinema não esteja presente na realidade de um determinado grupo social. Indivíduos, de qualquer classe social, devem ser incentivados, informados, para que sejam consumidores desta linguagem midiática e suas possibilidades artístico-expressivas.
Espera-se por parte das entidades de ensino e governamentais, uma tomada de posição objetiva na defesa dos valores em que se prezem a liberdade de expressão e a liberdade de consumo da arte. O Homem enquanto ser criativo, expressivo, sensível e equilibrado, não pode ser afastado/alijado do entendimento do cinema. O cinema não deve ser um produto formatado pela televisão – esta mídia é maior que a mídia televisa, não só em tamanho, mas em qualidade visual, intelectual e artística.
Temos todos sonhado com o desenvolvimento sustentado da nossa cidade. Desenvolvimento que signifique prosperidade para todos, que signifique oportunidades iguais para todos. Que signifique a inclusão de todos. Um sonho simples. Um sonho claro. Um sonho que deve ser um compromisso. Compromisso que, se firmado, pode ser tornar realidade.
Obrigado!

2 comentários:

Marcos Valerio disse...

Bravô! Meu caro colega blogueiro, parabéns por essa taref tão digna que é alavancar a cultura! Como dix o Vitor: "Vamos em frente".

Gustavo Landim Soffiati disse...

Obrigado, Marcos Valério. Bom tê-lo aqui de novo.
Um abraço.